sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Biutiful, pipoca e espumante

Ontem resolvi que meu cinema de domingo teria uma experiência nova. Fui em uma das salas Prime do Shopping Cidade Jardim. Entre tantos raios e nuvens negras uma sala diferente para mais um filme onde o pernsonagem principal tem sensibilidade a espíritos. Já na fila da pipoca me chamaram atenção as garrafas de espumante e vinho tinto a venda, não entendi bem. Como de costume comprei um café, a água, a minha pipoca e fui em direção à sala. A expectativa pelo filme foi tomada pela curiosidade da confortável cadeira, parecida com as que são usadas na primeira classe de vôos internacionais. Eu não consegui esconder minha euforia, e pra minha não surpresa, minha noiva  também sorria desconcertada. A pipoca chega um pouco antes de começar os trailers, trazidas em uma bandeja por uma garçonete simpatissíssima. Relaxado na cadeira, mal percebi que já começara as primeiras cartelas de Biutiful. Todo aquele encanto da sala desmoronou logo nas primeiras cenas. O tormento de Iñarritu acabou com a minha tranquilidade, takes belíssimos e  sujos mostram, pelo menos a mim, uma Espanha nova e sensivelmente decadente. Escutei um casal ao meu lado sussurrar que era o México, mas não, era a Europa na sua maneira mais visceral. Meus braços cruzados se apertavam esquecendo do couro gelado e macio das enormes cadeiras. Com a maravilhosa interpretação de Barden como sendo Uxbal, um espanhol de classe média baixa que convive com um câncer terminal e paradoxalmente tenta salvar a família explorando miseráveis imigrantes. Ele tem dois filhos cujas suas interpretações me fizeram chorar. Sua sensibilidade com espíritos foge da pieguisse de filmes recentes, e me faz refletir se todos aqueles raios lá de fora tem a ver com essa necessidade atual de as pessoas procurarem uma explicação para além morte. Isso é assunto atual, mas ontem a reflexão voltou aos becos de Barcelona. Eu fui Africano, Chinês e Latino, fui humano ao ver como o descontrole emocional gera estética e feridas, muito dinheiro e muita miséria. Ainda atormentado  eu voltei a ser Brasileiro, ao sair do cinema e ver novamente as garrafas de espumantes junto com às pipocas, raios e chuva grossa. Uma experiência que eu recomendo, não deixem de assistir ao Biutiful e ir às salas Prime do Shopping Cidade Jardim.

sábado, 25 de dezembro de 2010

SMS de Feliz Natal

Ontem 24/12/10, por volta de 19:20, recebi um SMS com uma mensagem linda de Feliz Natal. O estranho é que eu retornei com uma ligação e a operadora disse ser um numero inexistente. Por isso resolvi postar:

"Aguardo ansioso a hora do choro das mães e as risadas dos velhos admirando os netos recebendo o sacrifício dos pais. Exijo de mim um sorriso que pertence a você, e isso me faz lhe mandar essa mensagem vermelha. Enquanto isso um pássaro, na pequena amendoeira a minha frente, sem saber o porque de tanto tintilhar de copos, assim como nós, segue a construir seu ninho. Beijos e Feliz Natal." 

sábado, 18 de dezembro de 2010

Ipanema

O que tu fazes para que seu brilho dure eternamente na pele de quem a ti se entregou ao menos uma vez? O que tu fazes para ser paixão de poetas e homens ricos,  mesmo sendo uma oferecida em suas areias e esquinas? O que tu fazes que consegue abrir um sorriso no rosto até de um marido que trocou o bar ao supermercado? O que tu fazes para eu sentir o sabor salgado das suas águas em minhas incessantes lágrimas? 

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O espetáculo e ou trabalho

Mercedes fala abundantemente antes de entrar no palco. Dentro do camarim de madeiras escuras, ela repete os mesmos movimentos a quatro anos. Se naquele pequeno lugar as paredes tivessem ouvidos, já lhe teriam caído luzes e espelhos sobre a cabeça raspada a pente quase zero. Dentro do cubículo ela escuta o ecoar de sua próprira voz. A rotina é o tema principal do seu monólogo sem platéia. Ela começa falando dos olhos que se abrem matando a menina que corria feliz nos campos verdes do inconsciente, segue pela luz dura que entra na janela de madeira dando formas estranhas as plantas que tanto lhe são companheiras, a parede descascada, o barulho da panela de pressão do vizinho, o cheiro da sua vó e o estardalhaço de buzinas saem ferozes das veias estufadas do pescoço moreno. O desabafo continua com os farelos de biscoitos sobre a mesa suja de café, o cheiro de louça de dias passados, os azulejos quebrados da pia, o banho com pouca água, a roupa desbotada, o bom dia sedutor do locutor da rádio, a lembrança do calor do ônibus, o calor do ônibus, os sapatos e homens sujos da fila do banco, o suor, o almoço e o desgosto. Enfim o café frio e a conta para dar esperança ao silêncio. Mas não, Mercedes não quer descanso. E enquanto coloca a meia calça vermelha, volta a incomodar o mofo com sua voz emocionada, a lembrança da recente traição do namorado com a sua irmã, o maldito telefone que não toca, as lindas montanhas, o mar, a praia de São Conrado, o amor pelo Rio, Leblon, Ipanema e o choro chega a Copacabana. É tocada a sineta, o espetáculo começa em alguns minutos. A maquiagem borrada pelas lágrimas não dá mais tempo de consertar. Já a peruca é colocada enquanto caminha para o palco. Se escutam os gritos viriz da pequena platéia. As cortinas se abrem e o sorriso nos lábios de Mercedes também.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Av. Niemeyer em frente ao Vip's

Foi em uma sexta feira chuvosa, que Mario resolveu consumar o que vinha imaginando a alguns meses, dormir na varanda do descanso final. Travou uma guerra dentro do seu interior. Do lado direito de seu carro, a pequena mureta a lhe perseguir. Do lado esquerdo do seu peito, a lembrança da noiva grávida. As lágrimas lhe vieram como a força de paz, mas a noiva, o feto e o choro não lhe foram argumentos suficientes. A desesperança venceu a primeira batalha. Mario não contava que naquele momento tão difícil também lembraria do seu tio Roberto, que a anos não tinha contato. Envolvido com a sua arte, Roberto enlouqueceu e foi viver em Inhotim, Minas Gerais. Ele, por um período, foi um grande conselheiro de Mario. Resignado pela perda, a vida de Mario perdeu mais uma batalha. Estava decidido: entregaria a sua história ao mar. Neste momento as cores cítricas da infância vieram lhe confortar. Cores presentes na enorme quantidade de flores que o cercava. O constante barulho das ondas dividiam o som ambiente com acordes influenciados por Tom Jobim. Mulheres e homens, com sorrisos e corpos lindos, o convidavam a tirar a jaqueta de couro que tanto o esquentava. Os ponteiros do relógio serviam meramente de decoração na parede de azulejo portugues. Os movimentos de Mario não eram medidos pelo impacto de seus pés no chão de taco, a gravidade parecia não existir. O cheiro inesperado de papéis antigos, impregnavam suas narinas tão carentes de fortes suspiros. E foi no toque da mão macia de sua mãe já falecida, que ele sentiu novamente o peso do seu corpo físico em uma cama dura. Assim como um bebê no instante do nascimento, os seus olhos se abriram bruscamente. Não houve berros de criança. Os acordes foram interrompidos pelo barulho alto da cirene de uma ambulância. Como não teve força para manter os olhos abertos, os fechou novamente. Na escuridão, percebeu que estava nu e a cama dura era uma maca. A cirene continuava. Uma voz irreconhecível tentava comunicar, pelo rádio, o que havia acontecido. Mario, assustado, escutou que seu corpo foi encontrado onde as pedras namoram o mar.



"Desvario, embora lá tem seu método" reflexão de Polonius sobre uma fala transloucada de Hamlet.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Da Augusta à Marginal

Com sapatos surrados, Ciro desce a ladeira esburacada para começar mais um dia de trabalho. Conhecidos de esquinas fazem questão de mostrar o zelo pelo cansaço da manhã. Os olhos inchados e os casacos acinzentados cruzam seu caminho abraçados com as buzinas e as motos. Sua rotina se faz um programa fúnebre. Antes de entrar na estação de trem, ele não se abala e cede aos velhos espíritos um olhar para o céu que parece estar a dois palmos de sua recente calvice. Momento de saudade e pequenas lágrimas a queimar no canto do olho. Momento interrompido pelo empurrão de uma multidão. A recordação do choro no primeiro dia de aula lhe vem voraz, assim como as mãos enrugadas e unhas amareladas que dividem com ele o corrimão. O primeiro dia de aula é logo substituído pela realidade do terceiro mês naquela nova e gigantesca cidade. Ou será o seu primeiro ano? Ele não sabe, para Ciro os dias perderam a matemática. 

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

terça-feira, 30 de março de 2010

o medo

Aeroporto de Congonhas, uma hora da tarde de um sábado de carnaval. No mesmo tempo que autofalantes chamam insistentemente por um vôo para Brasília, uma mulher gorda e com a pele bem morena, caminha até sentar lentamente a minha frente. Com calma ela observa tudo ao seu redor, de um lado um branquelo que dorme sobre uma mochila, do outro um homem careca e de terno que ri descompassadamente a frente da tela do seu laptop. Já sentada e acomodada os grandes cílios emolduram o vai e vem das aeronaves. Os sapatos surrados contrastam com o cabelo cor de fogo muito bem cuidado. No momento que ela vai retirar alguma coisa da bolsa, um grupo de velhas gaúchas se aproximam, todas com sotaques bem carregados. Dentre elas uma se destaca pelo volume e o tom estridente de sua voz. Os olhos arregalados é a caracteristica em comum de todas elas. Quando todas estão instaladas uma delas começa a falar sobre o acidente que ali havia acontecido a um ano atrás, mas antes de entrar nos detalhes mórbidos da velhice, a voz estridente, como um machado afiado, corta o assunto com outro comentário, trazendo a luz a visão de um coroa bonitão e solitário que passava próximo a nós. O medo se tornou esperança e desejo. Claramente aquela voz era a estrela brilhante naquela constelação quase apagada. Nesse tempo meu olhar se perdeu da mulher a minha frente, mas quando lembrei meus olhos correram a percebe-la, e foi nesse instante que eu vi o crachá de uma cia aérea que ela carregara no peito, vi também que na bolsa menor que ela pegava na hora da chegada das velhas gaúchas, existia um esmalte cintilante. E agora das unhas ela faz o seu conforto, é como o artista com pequenas telas na ponta dos dedos. A voz e as piadas da gaúcha, que a essa altura já incomodavam as pessoas que estavam perto de nós,  pareciam não existir para mulata vaidosa. Depois das unhas, ele revê os lábios, prenchidos detalhandamente com um batom cor de laranja. Um avião se aproxima e o reflexo do sol reluz na sua carenagem limpíssima. O meu vôo para Rio de Janeiro é anúnciado e parece ser o mesmo delas, tanto das velhas quanto da gorducha a minha frente. Então começa novamente a troca dos atos pelo medo, o esmalte é guardado, a voz rouca se cala e as palavras terminam.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009


Maria da Reconciliação

A viagem foi no começo de uma madrugada de um mês de junho. Uma casa, emprestada por um amigo, com aproximadamente treze quartos, nos esperava a beira de uma praia próximo a Angra dos Reis, litoral do Rio de Janeiro. Tomamos algumas cervejas no caminho. Ela dirigia e também bebeu. Nas curvas da serra meu corpo virava o rosto para o meu raciocinio. Meus músculos queriam pular para o corpo dela, fazendo de nós um só ser. Pela primeira vez senti isso, era como uma criança querendo ser enrolado nos lençóis maternos, mas ali o lençois eram suas mãos.
Na chegada, percebemos que a casa parecia não estar preparada para nos receber.
- Já vai, grita uma voz abafada, após eu tocar a campainha insistentemente.
O barulho do mar me descansava da viagem. E meu olhar se perdeu por alguns segundos no mato escuro. Enquanto ninguém aparecia, sentei sobre uma pedra suja de limo e flores. Ela se aproximou e deitou-se sobre meus ombros de menino. Naquele momento meu olhar se encontrava em seus pequenos pelos loiros. Eu a adimirava, eu a devorava, eu chorava. Seus lindos lábios imprimiam em mim como se fossemos conhecidos de uma vida pré natal. Os olhinhos dela se fecharam, talvez para que eu ficasse mais a vontade para continuar a minha visita ao seu belo corpo. Seus grandes seios marcavam a camisa larga que usava.
Barulhos vindo de dentro de casa não conseguem dispersar meu olhar, até que mãos molhadas me tocam, eram as mãos de uma negra, e ela com um sorriso alegre no rosto, me convida a entrar. O cheiro de madeira e mofo que aperecem junto com aquela pele escura não saem do meu nariz.
Naquela hora tento acordar Maria, e com muito carinho e cuidado não consigo desperta-la. Na segunda tentativa, seguro seus dois braços e ela não esboça nenhuma reação e eu com força a chamo pelo nome completo.
- Maria da Reconciliação! e ela não me da resposta. Aflito eu peço um copo d'agua, a negra rapidamente me traz. Jogo no rosto de Maria e nada. Minhas mãos correm para seu pulso e ali não corre mais nenhum sentimento. Minhas lágrimas surgem com a quentura do meu sangue, meu coração dispara, talvez tentando a bater por nós dois. A negra, percebendo a morte, corre de medo e  tranca a porta. Eu deito Maria no chão e calo o meu choro. Vou a procura de socorro atrás das pedras escuras que cercavam a casa.